História da Cerveja no Brasil – Primeiros Rótulos

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Este artigo não pretende fazer um levantamento estatístico das cervejarias nacionais e nem mesmo servir como banco de dados para pesquisas mercadológicas. O objetivo aqui é apenas mostrar a evolução, em termos de linguagem, que os rótulos sofreram – assim como a comunicação visual no decorrer dos anos.

1808 – A abertura dos Portos – O Brasil conhece a Cerveja!

As boas línguas “cervejólogas” pregam que Dom João era um grande bebedor de cerveja, e ao chegar em nossas terras, sentiu falta da sua bebida preferida, e decidiu assim quebrar o monopólio comercial de Portugal, que dominava a colônia com seus produtos (vinhos), abrindo nossos portos para outros países produtores de cerveja. Claro que a história não é bem assim. Além das necessidades pessoais, Dom João necessitava movimentar comercialmente a até então colônia portuguesa. Colocar produtos estrangeiros em nosso território, significava maior arrecadação de impostos.
Dom João revoga o alvará de 1785, que proibia as manufaturas brasileiras e autoriza a instalação de tecelagens, fábricas de vidro e de pólvora, moinhos de trigo e uma fundição de artilharia. Também facilita a vinda de artesãos e profissionais liberais europeus, inclusive médicos e farmacêuticos.
Outros tratados firmados por Dom João em 1810, o de “Amizade e Aliança” e o de “Comércio e Navegação” consolidam ainda mais a presença inglesa na colônia. O Tratado de Comércio, por exemplo, fixa a taxa de 15% para todas as importações inglesas e de 24% para as de outras nações. Até 1814 a abertura dos portos beneficia exclusivamente a Inglaterra, que praticamente monopoliza o comércio com o Brasil. Estes fatos fizeram com que a cerveja consumida no Brasil, de qualquer origem, fosse introduzida com exclusividade pela Inglaterra.
Até o final da década de 1830, a cachaça era a bebida alcoólica mais popular do País. Além dela, eram importados licores da França e vinhos de Portugal, especialmente para atender à nobreza. Nesse período a cerveja já era produzida, mas num processo caseiro realizado por famílias de imigrantes para o seu consumo.
Apenas a partir de 1859 é que começamos a ter produção de cerveja em nosso território, e é ai que começa a história dos rótulos brasileiros de cerveja.
As primeiras cervejas produzidas e vendidas no Brasil não possuíam rótulo, e eram genericamente denominadas de “Cerveja Barbante”, essa expressão, que se tornou bastante popular até os dia atuais vem do fato de que as cervejas da época eram acondicionadas em garrafas de vinhos, arrolhadas. Como a indústria era bastante rudimentar e as técnicas de carbonatação eram pouco conhecidas, os produtores da época amarravam a rolha ao gargalo da garrafa com barbante, para evitar abertura espontânea devido ao acumulo não controlado de CO².
Até meados dos anos 1890, a maioria das publicações faziam referência apenas a venda de cervejas em determinados locais. A partir deste ponto, vou dividir a história dos rótulos em 4 períodos:

Primeiro Período: de 1808 a 1922;
Segundo Período: de 1922 a 1950;
Terceiro Período: de 1950 a 2000;
Quarto Período: de 2000 aos dias atuais.

Primeiro Período: de 1808 a 1922

Neste período os rótulos serviam principalmente como etiqueta de identificação, neles constavam os dados do fabricante e o nome do produto. Uma característica comum, já naquela época, era o fato das cervejarias destacarem sua origem. A maioria dos rótulos frisavam que eram produzidas no Brasil, e em determinado estado federativo.

Vide Exemplos:

Sem data definida, anterior a 1900 Antartctica, 1895 Júpiter da Pomona – Início do século XX (1901)

Curiosidade:
História do Rótulo da Brahma:

Em Abril de 1888 o jornal “Auxiliador da Indústria Nacional” anuncia o surgimento de uma pequena fábrica de cerveja de alta fermentação, chamada Brahma, cujo o proprietário era um imigrante sueco, nascido em 1856, o engenheiro Joseph Villiger, que chegou ao Brasil em 1879 estabelecendo-se à Rua do Visconde de Sapucahy (antiga Rua Bom Jardim e atual Marquês de Sapucaí, número 128, esquina da Travessa Dona Rosa).

Acostumado ao sabor das cervejas europeias e inconformado com a má qualidade das cervejas brasileiras, resolveu abrir seu próprio negócio, a “Manufactura de Cerveja Brahma – Villiger & Companhia”, fundada por Villiger, pelo brasileiro Paul Fritz e Ludwig Mack, lançando comercialmente a Cerveja Brahma.

A fábrica foi inaugurada com capacidade de produção de 12 mi litros/mês.

Em 3 de Setembro de 1888 foi apresentado na junta comercial da Capital do Império, a 1 hora da tarde, o pedido de registro da marca Brahma e a imagem de vários rótulos que seriam utilizados nos barris dos diversos tipos de cervejas.

Abaixo o documento e sua transcrição:

“Villiger & Cia estabelecidos com Fábrica de Cerveja na Rua Visconde de Sapucahy nº 122 B, Rio de Janeiro, usam para distinguir a Cerveja de sua fabricação o rótulo acima colado. Lê-se neste rótulo as palavras “Manufactura de cerveja Brahma” “Villiger & Cia” “B 122 R. Visc. De Sapucahy 122 B” “Rio de Janeiro” a paralavra Brahma está escripta com letras altas de typo grosso, no lado esquerdo vê-se um emblema representando uma senhora em cima de um barril, tendo na mão direita um copo com cerveja, e mostrando com a esquerda a palavra “Brahma” no fundo deste emblema observa-se lúpulo e cevada no barril acha-se pregado um lettreiro com a palavra “Branca ou Dupla”, para as diferentes qualidades de cerveja muda-se esta palavra e cores dos rótulos do modo seguinte:

Para cerveja dupla branca – BRANCA – Rótulo em 4 cores

Para cerveja simples branca – SIMPLES – Rótulo em 1 cor encarnada

Para cerveja dupla preta – PRETA – Rótulo em 1 cor preta

Para cerveja simples pretaa – SIMPLES – Rótulo em 1 cor Preta

Para cerveja parda – PARDA – Rótulo em 1 cor café

O rótulo está cercado com duas linhas em todos os quatro lados formando nos pontos de encontro ângulo recto, a cor d’estas linhas é correspondente ao de cada rótulo.

Rio de Janeiro, 3 de Setembro de 1888 – Villiger & Cia

Em 6 de Setembro de 1888, em virtude do despacho da Junta comercial, foi efetivado o registro sob o nº 1549.

Pagou no 1º exemplar: Imposto de sello e 300 Réis de taxa adicional de 5%.

Em 1894 a Manufactura de Cerveja Brahma, Villiger & Coompanhia é adquirida pelo cervejeiro alemão Georg Maschke, 28, cujo intuito inicial foi o de produzir cerveja pelo mais novo e adiantado método já existente: O de baixa fermentação.

No dia 20 de outubro de 1903, aos 47 anos, Joseph Villiger faleceu.

Segundo Período: de 1922 a 1950

Este foi um período efervescente na produção cultural e artística brasileira, devido a semana de Arte Moderna de 1922. Também chamada de Semana de 22, ocorreu em São Paulo no ano de 1922, nos dias 13 a 17 de fevereiro, no Teatro Municipal.
Cada dia da semana foi dedicado a um tema: respectivamente, pintura e escultura, poesia, literatura e música.
O presidente do estado de São Paulo à época, Washington Luís, apoiou o movimento, especialmente por meio de René Thiollier, que solicitou patrocínio para trazer os artistas do Rio de Janeiro Plínio Salgado e Menotti Del Pichia, membros de seu partido, o Partido Republicano Paulista.
A Semana de Arte Moderna representou uma verdadeira renovação de linguagem, na busca de experimentação, na liberdade criadora da ruptura com o passado e até corporal, pois a arte passou então da vanguarda, para o modernismo. O evento marcou época ao apresentar novas ideias e conceitos artísticos, como a poesia através da declamação, que antes era só escrita; a música por meio de concertos, que antes só havia cantores sem acompanhamento de orquestras sinfônicas; e a arte plástica exibida em telas, esculturas e maquetes de arquitetura, com desenhos arrojados e modernos. O adjetivo “novo” passou a ser marcado em todas estas manifestações que propunha algo no mínimo curioso e de interesse.
Todas essas influências e “novas” tendências foram rapidamente absorvidas pelos rótulos cervejeiros, que passaram de simples etiquetas de identificação, para verdadeiras obras de artes impressas, destacando formas, cores e buscando uma comunicação mais harmoniosa com o meio.
É importante ressaltar que essa não foi uma mudança do dia para a noite, mas sim um movimento lento, que culminou em 1922.

Vide exemplos:

Vitória Paulista, é de 1932, não chegou a ser usado, foi feito para comemorar a vitória que não aconteceu – o mais curioso é que entre os 3 generais há um que é filho de cervejeiro e teve cervejaria* Até1921 , não tinha o nome de cachorrinha só tinha a imagem de um cachorro – os consumidores é que passaram a chamar de cachorrinha
Produzida pela Cervejaria Adriática
Registro posterior a 1924


*General Bertoldo Klinger, o do meio, foi filho de Anton Klinger, dono da Cervejaria Antonio Klinger, no Rio Grande do Sul.

Terceiro Período: de 1950 a 2000

A partir de 1950, os rótulos passam a sofrer a influência direta do Design Gráfico, assim como o conhecemos hoje. Guilherme Cunha Lima considera que Eliseu Visconti, precursor do moderno design brasileiro, foi também pioneiro no ensino dessa atividade em nosso País. Convidado em 1934 por Flexa Ribeiro, à época diretor da Escola Politécnica da Universidade do Rio de Janeiro, Visconti organiza e ministra um curso de extensão universitária em arte decorativa e arte aplicada às indústrias, adotando em seus ensinamentos a orientação de Eugène Grasset, uma das mais destacadas expressões do art-nouveau na França.
Mas a área só começaria a ser tratada como especialidade artística diferenciada a partir da criação do primeiro escritório de design no país, o FormInform, por Alexandre Wollner, Geraldo de Barros, Rubem Martins e Walter Macedo, após a volta de Wollner da Europa em 1958. Sua atividade levaria depois à fundação da primeira escola superior de design, a Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI) no Rio de Janeiro, em 1963, sendo o marco inicial da profissionalização do design no Brasil.
Os rótulos passam a ficar “mais limpos e leves”, com foco comercial, criados com bases em pesquisas de mercado, em contato direto com o consumidor. É importante ressaltar também que neste período houve uma grande expansão varejista no Brasil, com a criação de mercados e grandes magazines, o que gerava uma necessidade maior de destaque do produto na prateleira.

Vide Exemplos:

Quarto Período: de 2000 aos dias atuais.

Ainda estamos escrevendo este novo capítulo, que no Brasil foi desbravado pela Cervejaria Colorado em 1997. O que percebemos, hoje, é que está havendo uma nova ruptura de conceitos, as cervejas estão com rótulos cada vez mais rebuscados e tentando passar mensagens não mais subliminares, mas sim contar sua história de forma clara e direta, através de desenhos. Por que não afirmar que, expor seu produto como se fosse uma tela, uma obra de arte. Por outro lado vemos no exterior uma tendência minimalista, com rótulos pequenos e que pouco dizem sobre o produto, valorizando apenas a embalagem.
O que podemos afirmar por hora, é que os rótulos brasileiros, após buscarem referências históricas, passaram a investir em artes e ilustrações de alta qualidade.
Os rótulos minimalistas encontram no Brasil uma dificuldade de penetração, devido às poucas opções de embalagens (garrafas) disponíveis no mercado. Qualquer coisa fora do padrão inviabiliza os custos de produção. Por outro lado, a inserção das latas no mercado “artesanal”, começa a mostrar bastante a tendência minimalista e objetiva dos rótulos.

Vide Exemplos:

Estilo Vintage Cervejaria Colorado: Inovação de conceitos. Exemplo de Rótulo minimalista.

Resumo Cronológico:

1808 – Chegada da Família Real ao Brasil – Abertura dos Portos.
1810 – Novos tratados comerciais são firmados – Privilégios aos produtos ingleses.
1840 – Começa a produção de cerveja no Brasil – Vendas de balcão.
1870 – Surgem as primeiras cervejas engarrafadas e rotuladas.
1922 – Semana de Arte Moderna
1934 – Primeiro de artes Aplicadas à Indústria.
1963 – Fundação da Escola Superior de Desenho Industrial.
1997 – Cervejaria Colorado Contrata o Designer Randy Mosher

 

Referências:

cervisiafilia.blogspot.com/

Wikiéidia

Larousse da Cerveja – Ronaldo Morado

Imagens cedidas gentilmente por Carlos Alberto Tavares Coutinho e Paulo Antunes Jr.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Cristiane Nucci disse:

    Interessante!!!

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